Mais um roubo. Este não foi exatamente de um post, não foi de um blog, mas de um e-mail. Recebi hoje de manhã, e na minha ronda diária pelos blogs que eu adoro, vi que o Fernando Lara escreveu sobre o mesmo assunto. Como eu ando com vontade de escrever, mas pouco inspirada, resolvi roubar o e-mail e transformá-lo em post. O texto é do Cristiano Dias, que não é dono de blog algum, mas ainda assim não se livrou dos meus furtos.
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Tem coisa q ñ dá pra deixar passar...
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Para quem não acompanhou, a Igreja Católica decidiu excomungar todos os envolvidos no aborto realizado em uma menina de nove anos, em Pernambuco.
A menina, repita-se, de nove anos, vinha sendo estuprada regularmente por seu padastro, desde os seis anos de idade. Acabou grávida de gêmeos.Escusado dizer sobre os riscos envolvidos na gravidez de uma criança sem estrutura física para suportar toda a demanda do período (psíquica, então, esquece...).
A mãe da criança grávida decide pelo aborto, respaldada na exceção legal que o permite em situações tais. Os médicos interrompem a gravidez. Alívio, fim de um drama, vida que segue? Não, pois Deus não perdoa. Ao menos, segundo a Igreja.
O arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, mesmo antes da efetivação do aborto, já declarava a oposição da instituição religiosa. Seus argumentos seriam trágicos, se não fossem ridículos. Segue a citação, para se ter uma idéia da densidade do raciocínio do pároco:
- A lei de Deus está acima de qualquer lei humana. Então, quando uma lei humana, quer dizer, uma lei promulgada pelos legisladores humanos, é contrária à lei de Deus, essa lei humana não tem nenhum valor.
Resultado: a Igreja excomungou todos os envolvidos no aborto: mãe, parentes, médicos. A criança, não, pois a Igreja, ainda segundo o arcebispo, é muito benévola. Duvidam? Saboreiem, então, um pouco mais da sapiência clerical:
- Para incorrer nessa penalidade eclesiástica, é preciso maioridade. A Igreja, então, é muito benévola, quer dizer, sobretudo, com as pessoas de menor. Agora os adultos, quem aprovou, quem realizou esse aborto, incorreu na excomunhão. A Igreja não costuma comunicar isso. Agora, a gente espera que essa pessoa, em momentos de reflexão, não espere a hora da morte para se arrepender.
É até difícil argumentar contra raciocínios tão rasteiros. O melhor a fazer, talvez, seja observar os contornos da punição: a Igreja não lista, nome por nome, os atingidos. Estarão as enfermeiras também excomungadas? Mesmo aquela que só trocou o soro da criança internada? Estarão todos proibidos de rezar à noite, na solidão de seus quartos?
Vá lá que, para muitos de nós, um pouco mais arejados, excomunhão e nada é a mesma coisa. Mas, no nordeste, ou em qualquer lugar do país, sendo a família menos esclarecida, qual será a repercussão social (e mesmo pessoal) da medida?
A coisa piora, contudo, quando nos esquecemos desses contornos e nos centramos no fato da excomunhão em si. A Igreja está a se opor ao fim (ou ao alívio) do sofrimento de uma família, já bastante machucada pelos fatos em si (uma mulher que descobre que seu marido está estuprando sua filha de apenas nove anos, gerando, desse crime, uma gravidez de todo indesejada).
Não estou a defender o aborto (discussão que mereceria outros emails), mas sim a atacar a absoluta falta de sensibilidade de quem se espera, sobretudo, solidariedade, humanidade, compreensão. Atributos cristãos que passam, hoje, longe da Igreja católica.
A Igreja não perdeu apenas uma boa oportunidade de ficar calada. Perdeu mesmo foi o trem da história; na defesa intransigente de seus dogmas, foi ficando ridícula, desumana, pequena. Cada dia mais, insignificante.
Enfim, como dito ali no início, tem coisa que não dá pra deixar passar. O trágico da história é ouvir o alegado representante de deus na Terra dizer esperar que os envolvidos não esperem a hora da morte para se arrepender. Pois não devemos jamais esperar arrependimento por parte da Igreja, que, como sabemos ao longo da história, não erra.
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