7 de maio de 2013
4 de maio de 2013
Soares da Cunha
Ele sempre teve medo da morte. Medo não. Pavor. Acho que todo mundo deve ter, pelo menos um pouco. A gente tem medo do que a gente não sabe, do que a gente não conhece, né? E tem medo de ficar sozinho. Eu sou bem assim também. Desde pequena. Tinha insônias terríveis, com medo de dormir e não acordar mais. Eu? Ele. Ele? Eu.
Ele sempre foi o meu avô doidinho. Doidinho, não. Doidão. O que vê moça nova e bonita na rua e diz que Jânio Quadros tinha razão quando queria proibir minissaia e biquíni porque isso faz muito mal pra velho que ainda enxerga. O que sai pra boemia e tem que ser levado do boteco às quatro da manhã. O que dirige, mesmo velhinho, no meio da pista de mão e contramão, porque diz que gosta de andar na linha, ainda que na prática a teoria seja outra. O que chega na concessionária e pede um carro roxo, simplesmente porque ele acordou com vontade de dirigir um carro roxo. O que corta com o canivetinho o fumo de rolo e enrola na palha de milho os próprios cigarros. O que arruma uma namorada em cada esquina, ah, as suas concubinas, mesmo com a vovó esperando em casa. O que sempre foi cheio de vontades, e cheio de gente disposta a atendê-las. O poeta, o trovador, o que sabe usar as palavras com uma dose de humor e sarcasmo a qualquer hora.
Teimoso. Ah, e quem não é? E que graça que tem viver pela metade? Mas quem é que não quer viver?
Não, eu não estou com medo. Estou com o coração apertado, é verdade. Mas, sabe, Deus sabe bem o que faz. Porque às vezes a gente acha que sabe o que é melhor, e quer muito uma coisa, mas se Ele quiser outra e achar que a outra coisa é melhor, a gente tem que acreditar Nele, tem que confiar Nele, e entregar pra Ele.
Por menos que eu dela goste,
Das minhas trovas, querida,
Não posso excluir a morte:
Ela faz parte da vida.
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