31 de agosto de 2009

Eu chego lá!


isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além
Paulo Leminsk

Exercício de Paciência

Respiro fundo. No final das contas, às vezes acabo me surpreendendo. Às vezes não.

29 de agosto de 2009

27 de agosto de 2009

Apostar na alegria


Um amor assim delicado
Você pega e despreza
Não devia ter despertado
Ajoelha e não reza
Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza
Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa
Um amor assim violento
Quando torna-se mágoa
É o avesso de um sentimento
Oceano sem água
Ondas, desejos de vingança
Nessa desnatureza
Batem forte sem esperança
Contra a tua dureza
Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa
Um amor assim delicado
Nenhum homem daria
Talvez tenha sido pecado
Apostar na alegria
Você pensa que eu tenho tudo
E vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo
E eu te grito esta queixa
Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Amiga, me diga...

26 de agosto de 2009

Escrito nas estrelas

O dia que Júpiter encontrou Saturno
Caio Fernando de Abreu
Foi a primeira pessoa que viu quando entrou. Tão bonito que ela baixou os olhos, sem querer querendo que ele também a tivesse visto. Deram-lhe um copo de plástico com vodka, gelo e uma casquinha de limão. Ela triturou a casquinha entre os dentes, mexendo o gelo com a ponta do indicador, sem beber. Com a movimentação dos outros, levantando o tempo todo para dançar rocks barulhentos ou afundar nos quartos onde rolavam carreiras e baseados, devagarinho conquistou uma cadeira de junco junto a janela. A noite clara lá fora estendida sobre Henrique Schaumann, a avenida poncho & conga, riu sozinha. Ria sozinha quase o tempo todo, uma moça magra querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz. Molhou os lábios na vodka tomando coragem de olhar para ele, um moço queimado de sol e calças brancas com a barra descosturada. Baixou outra vez os olhos, embora morena também, e suspirou soltando os ombros, coluna amoldando-se ao junco da cadeira. Só porque era sábado e não ficaria, desta vez não, parada entre o som, a televisão e o livro, atenta ao telefone silencioso. Sorriu olhando em volta, muito bem, parabéns, aqui estamos.
Não que estivesse triste, só não sentia mais nada.
Levemente, para não chamar atenção de ninguém, girou o busto sobre a cintura, apoiando o cotovelo direito sobre o peitoril da janela. Debruçou o rosto na palma da mão, os cabelos lisos caíram sobre o rosto. para afastá-los, ela levantou a cabeça, e então viu o céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. Vista assim parecia não uma moça vivendo, mas pintada em aquarela, estatizada feito estivesse muito calma, e até estava, só não sentia mais nada, fazia tempo. Quem sabe porque não evidenciava nenhum risco parada assim, meio remota, o moço das calças brancas veio se aproximando sem que ela percebesse.
Parado ao lado dela, vistos de dentro, os dois pintados em aquarela - mas vistos de fora, das janelas dos carros procurando bares na avenida, sombras chinesas recortadas contra a luz vermelha.
E de repente o rock barulhento parou e a voz de John Lennon cantou every dau, every way is getting better and better. Na cabeça dela soaram cinco tiros. Os olhos subitamente endurecidos da moça voltaram-se para dentro, esbarrando nos olhos subitamente endurecidos dos moço. As memórias que cada um guardava, e eram tantas, transpareceram tão nitidamente nos olhos que ela imediatamente entendeu quando ele a tocou no ombro.
-Você gosta de estrelas?
-Gosto. Você também?
-Também. Você está olhando a lua?
-Quase cheia. Em Virgem.
-Amanhã faz conjunção com Júpiter.
-Com Saturno também.
-Isso é bom?
-Eu não sei. Deve ser.
-É sim. Bom encontrar você.
-Também acho.
(Silêncio)
-Você gosta de Júpiter?
-Gosto. Na verdade "desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra".
-Que é isso?
-Um poema de um menino que vai morrer.
-Como é que você sabe?
-Em fevereiro, ele vai se matar em fevereiro.
(Silêncio)
-Você tem um cigarro?
-Estou tentando parar de fumar.
-Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
-Você tem uma coisa nas mãos agora.
-Eu?
-Eu.
(Silêncio)
-Como é que você sabe?
-O quê?
-Que o menino vai se matar.
-Sei de muitas coisas. Algumas nem aconteceram ainda.
-Eu não sei nada.
-Te ensino a saber, não a sentir. Não sinto nada, já faz tempo.
-Eu só sinto, mas não sei o que sinto. Quando sei, não compreendo.
-Ninguém compreende.
-Às vezes sim. Eu te ensino.
-Difícil, morri em dezembro. Com cinco tiros nas costas. Você também.
-Também, depois saí do corpo. Você já saiu do corpo?
(Silêncio)
-Você tomou alguma coisa?
-O quê?
-Cocaína, morfina, codeína, mescalina, heroína, estenamina, psilocibina, metedrina.
-Não tomei nada. Não tomo mais nada.
-Nem eu. Já tomei tudo.
-Tudo?
-Cogumelos têm parte com o diabo.
-O ópio aperfeiçoa o real
-Agora quero ficar limpa. De corpo, de alma. Não quero sair do corpo.
(Silêncio)
-Acho que estou voltando. Usava saias coloridas, flores nos cabelos.
-Minha trança chegava até a cintura. As pulseiras cobriam os braços.
-Alguma coisa se perdeu.
-Onde fomos? Onde ficamos?
-Alguma coisa se encontrou.
-E aqueles guizos?-E aquelas fitas?
-O sol já foi embora.
-A estrada escureceu.
-Mas navegamos.
-Sim. Onde está o Norte?
-Localiza o Cruzeiro do Sul. Depois caminha na direção oposta.
(Silêncio)
-Você é de Virgem?
-Sou. E você, de Capricórnio?
-Sou. Eu sabia.
-Eu sabia também.
-Combinamos: terra.
-Sim. Combinamos.
(Silêncio)
-Amanhã vou embora para Paris.
-Amanhã vou embora para Natal.
-Eu te mando um cartão de lá.
-Eu te mando um cartão de lá.
-No meu cartão vai ter uma pedra suspensa sobre o mar.
-No meu não vai ter pedra, só mar. E uma palmeira debruçada.
(Silêncio)
-Vou tomar chá de ayahuasca e ver você egípcia. Parada do meu lado, olhando de perfil.
-Vou tomar chá de datura e ver você tuaregue. Perdido no deserto, ofuscado pelo sol.
-Vamos nos ver?
-No teu chá. No meu chá.
(Silêncio)
-Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
-Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
-Vou te escrever carta e não te mandar.
-Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
-Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
-Vou ver Saturno e me lembrar de você.
-Daqui a vinte anos voltarão a se encontrar.
-O tempo não existe.
-O tempo existe, sim, e devora.
-Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema?
-Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida.
-E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.
(Silêncio)
-Mas não seria natural.
-Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
-Natural é encontrar. Natural é perder.
-Linhas paralelas se encontram no infinito.
-O infinito não acaba. O infinito é nunca.
-Ou sempre.
(Silêncio)
-Tudo isso é muito abstrato. Está tocando "Kiss, kiss, kiss". Por que você não me convida para dormirmos juntos.
-Você quer dormir comigo?
-Não.
-Porque não é preciso?
-Porque não é preciso.
(Silêncio)
-Me beija.
-Te beijo.
Foi a última pessoa que viu ao sair. Tão bonita que ele baixou os olhos, sem saber sabendo que ela também o tinha visto. Desceu pelo elevador, a chave do carro na mão. Rodou a chave entre os dedos, depois mordeu leve a ponta metálica, amarga. Os olhos fixos nos andares que passavam, sem prestar atenção nos outros que assoavam narizes ou pingavam colírios. Devagarinho, conquistou o espaço junto à porta. Os ruídos coados de festas e comandos da madrugada nos outros apartamentos, festas pelas frestas, riu sozinho. Ria sozinho quase sempre, um moço queimado de sol, com a barra branca das calças descosturadas, querendo controlar a própria loucura, discretamente infeliz.
Mordeu a unha junto com a chave, lembrando dela, uma moça magra de cabelos lisos junto à janela. Baixou outra vez os olhos, embora magro também. E suspirou soltando os ombros, pés inseguros comprimindo o piso instável do elevador. Só porque era sábado, porque estava indo embora, porque as malas restavam sem fazer e o telefone tocava sem parar. Sorriu olhando em volta.
Não que estivesse triste, só não compreendia o que estava sentindo.
Levemente, para não chamar a atenção de ninguém, apertou os dedos da mão direita na porta aberta do elevador e atravessou o saguão de lado, saindo para a rua. Apoiou-se no poste da esquina, o vento esvoaçando os cabelos, e para evitá-lo ele então levantou a cabeça e viu o céu. Um céu tão claro que não era o céu normal de Sampa, com uma lua quase cheia e Júpiter e Saturno muito próximos. Visto assim parecia não um moço vivendo, mas pintado num óleo de Gregório Gruber, tão nítido estava ressaltado contra o fundo da avenida, e assim estava, mas sem compreender, fazia tempo. Quem sabe porque não evidenciava nenhum risco, a moça debruçou-sena janela lá em cima e gritou alguma coisa que ele não chegou a ouvir. Parado longe dela, a moça visível apenas da cintura para cima parecia um fantoche de luva, manipulado por alguém escondido, o moço no poste agitando a cabeça, uma marionete de fios, manipulada por alguém escondido.
De repente um carro freou atrás dele, o rádio gritando "se Deus quiser, um dia acabo voando". Na cabeça dele soaram cinco tiros. De onde estava, não conseguiria ver os olhos da moça. De onde estava, a moça não conseguiria ver os olhos dele. Mas as memórias de cada um eram tantas que ela imediatamente entendeu e aceitou, desaparecendo da janela no exato instante em que ele atravessou a avenida sem olhar para trás.

21 de agosto de 2009

Metade (ou quando as palavras são o melhor presente)


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Metade‏
From: Laura Henriques
Sent: Fri 8/21/09 8:03 PM
To: ana_guimaraes
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Amore.
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Esse texto nasceu roubado (do Oswaldo Montenegro), mas nasceu parido da minha cabeça que quis dar ele de presente pra vc hoje. Pode colocar no seu blog, se vc quiser. Se não quiser, fico feliz dele ser parte da sua caixa de entrada. Hoje.
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Love you.

Metade Ana (Oswaldo Montenegro e Laura)
.
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que a Ana grita,
Mas a Laura é silêncio...
.
Que a música que eu ouço ao longe ou no IPOD
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a amiga que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque se a Laura é partida
A Ana é saudade... e vice-versa, necessariamente
.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A uma bonitona inundada de sentimentos (e de angústias e dúvidas);
Porque a metade Ana de mim é o que ouve
O que pros outros a metade Laura cala...
.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade Laura de mim é o que penso
Mas a metade Ana é um vulcão...
.
Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque a metade Laura de mim é a lembrança do que fui,
E a metade Ana me ajuda a saber...
.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque a metade Ana de mim é abrigo
Mas a metade Laura é cansaço...
.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para faze-la florescer;
Porque metade Laura de mim é platéia
E a metade Ana é canção...
.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque a metade Laura de mim é amor
E a metade Ana... também.

VIDA

from Lenora Guimarães
to ana guimaraes
date Thu, Aug 20, 2009 at 11:54 PM
subject VIDA

O altar no centro marca o inicio. Toalha branca que apoia velas e flores... begonias vibrantes em vermelho e laranja. Vermelho, vibrantes... Vi você Aninha, na sua força vital, na sua beleza, na sua alegria de viver. E falei de você e do seu aniversário e disse que eu estaria bem aqui celebrando sua vinda e que tinha certeza que você também estaria bem celebrando daí sua vida.
E hoje, após o trabalho do dia, numa volta pelos jardins, colhi painas recem nascidas da paineira e com elas fiz um pompom e vi você. Nasceu fofinha e branquinha... em minhas mãos te senti e te acarinhei.
E vi negras jaboticabas lindamente arranjadas nos troncos firmes e te vi em seus vestidos e blusas tão graciosa... e senti uma fragrancia vinda da noite em meio a coachar de sapos e grilos e era um perfume inebriante e misterioso pois não sabia de onde vinha... mas te senti.
Presente na vida, presente na nossa vida e fui feliz esta noite e sou feliz por voce.
E do meu coração, filha, nasce uma bençao, cresce uma prece sem pressa, de que você possa continuar passo a passo, também sem pressa, com calma confiança e alegria desvendando todos os segredos do seu coração e partilhando amor, que isto com certeza é realidade na sua vida e no seu ser.
Que se cumpra cada vez mais na sua vida o amor a si propria, o amor à familia, o amor ao trabalho, a realização da expansão de conhecimentos, a criatividade e a entrega à guiança da sua alma e do seu melhor para cumprir seu destino de união.
Tenho certeza de que você é feliz e se responsabiliza por isto. Vá em frente, sonhe, deseje, flexibilize-se, abra-se, abrace-se, celebre, viaje, ilumine-se, silencie, vibre, descanse, pinte e borde, gargalhe, me abrace, deixe que eu te dê colo, deixe que eu te faça um cafuné, que eu cheire seu cangote há muito sem cheiro de leite mas com cheiro de mulher - perfumada, feminina, amorosa.
Deixe que eu te acenda as velas e sopre com toda força de seus pulmôes as chamas que acendem sua juba dourada e adorada do poder criativo em você.
Te amo, te amamos, parabéns.
Amor, mamãe... e papai... e Larinha... e Lulu....e....e.....e.....e.....e.....e......e......e......e... o mundo, feliz de te ter.

20 de agosto de 2009

18 de agosto de 2009

15 de agosto de 2009

Como a primeira vez

Quando fiz curso de história e crítica de cinema, tinha um professor que falava que morria de inveja de quem nunca tinha visto Casablanca ou E o vento levou. Porque estas pessoas iam ter o prazer de assistir a estes filmes pela primeira vez, coisa que ele não teria mais. Porque as coisas, quando acontecem pela primeira vez, têm um impacto diferente, têm um sabor diferente, têm uma emoção diferente. E eu que até concordo. Na época, super concordei. E depois desta, sempre que alguém comenta sobre alguma coisa parecida, eu me lembro deste professor. Como quando outro dia minha avó contou que tinha comido um bombom, ficou com vontade de comer outro, comeu outro, mas depois se arrependeu, porque o segundo não teve a graça do primeiro.
Mas hoje eu discordei disso tudo. Porque eu fui ver um show que eu já tinha visto - cinco anos atrás. The Beatles Songs, da Cia Filarmônica de São Paulo. E, sério mesmo, eu não lembrava como é bom!
E aí eu decidi que eu quero sempre assim: as coisas têm que ter graça sempre, na primeira ou na milésima vez. Como o frio na barriga e o coração disparado do começo de namoro, mesmo depois de anos de relacionamento.

13 de agosto de 2009

10 de agosto de 2009

Rápida e Rasteira

(roubei daqui, que roubou daqui)

- Escuta: a música do nosso primeiro beijo…
- É linda… Mas eu nem te conheço.
- Calma. A música não acabou.

9 de agosto de 2009

O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos


Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo?

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.


Fernando Pessoa

7 de agosto de 2009

Porque esta semana foi aniversário dele

E eu só existo porque eles nasceram um dia.



6 de agosto de 2009

O Gambá que não sabia sorrir

Porque, além do sorriso, tudo mais depende do ponto de vista.

5 de agosto de 2009

Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

4 de agosto de 2009

O céu é meu chão

Hoje eu me lembrei de como gosto deste filme. Aliás, hoje eu pensei mais uma vez em como eu amo filmes, e há quanto tempo estou sem assistir a um, bom mesmo, na correria do trabalho dos dias das semanas e das coisas que eu arrumo nos dias dos fins de semana. Preciso reler Lavoura Arcaica. Estamos sempre voltando pra casa. E, sabe, hoje eu pensei que talvez os ainda poucos escritos deste Agosto que mal começou (e como eu gosto de Agostos!) sejam mesmo apenas fruto da suspensão brusca dos corticóides pra amigdalite da semana passada. Ufa!

3 de agosto de 2009

Stay (just a little bit longer)

Sempre achei que tinha uma certa facilidade com as palavras – ditas e escritas – e mais do que com palavras, com a forma com que elas traduzem os sentimentos, as vontades, os momentos. Sempre achei que carregava escritas na testa ou nos olhos as coisas que sinto, as coisas que quero. Mas a expressão não é só de quem fala ou transparece, é também de quem recebe. E nem sempre somos interpretados como pensávamos, e quase nunca notamos se estamos sendo mesmo compreendidos. Estou aprendendo.
Sempre expansiva e falante, carinhosa e doce, sincera e autêntica, às vezes me percebo mais fechada do que de costume. E sensível demais. Talvez isto seja parte deste aprendizado. Dosar a entrega, a expectativa, parar na ansiedade para ver se do outro lado existe eco, se a via é de mão dupla, se a piscina está cheia d’água antes de pular de cabeça. E no meio do impulso, saber que existe um espaço, o espaço do outro, o limite que deve ser respeitado, que deixe à vontade. Outro desafio. Porque não dá pra saber a distância entre o respiro e a demonstração do significado que as coisas têm.
Por muitas vezes ensaiei conversar com você. Algumas delas até cheguei a comentar com você. Repetia pra mim mesma. Sempre atenta à dosagem entre este espaço e a transparência. Não consegui. Talvez por receio de ser mal interpretada, talvez por não sentir de você reciprocidade, talvez por não querer invadir o seu mundo, talvez por insegurança mesmo. Outro dia mesmo, de novo, foi assim.
Mas, sabe, por mais que eu tente deixar as coisas como estão, e deixar você ir sumindo, sumindo, sumindo, até desaparecer de vez, não sei ir embora sem dizer tchau. Não sei ir dormir sem dar beijo de boa noite. Não sei deixar que as pessoas passem sem saber o significado que elas tiveram, ou têm, pra mim. E acho que é por isso que às vezes insisto. Acho que é por isso que eu construo castelos, ilumino estrelas, sonho surpresas, e pelo menos por um tempo, me convenço das desculpas que ouço. Viagem, família, futebol, amigos, trabalho. Tudo isto faz parte mesmo. E é realmente importante que faça. A vida da gente é boa demais exatamente por cada uma dessas coisinhas, cada uma em seu tempo, e por isso é tão importante o espaço de cada um. E eu sempre acredito nas pessoas. Eu sempre acredito que as pessoas são como eu. E assim, acabo deixando os sumiços passarem, cada um com a sua razão, sem cortar as amarras e ler nas entrelinhas que, não, ele não está tão a fim de você.
Aí, me imponho meus próprios limites. Meus com os outros, sem que os outros ao menos saibam, sem que me saibam, sem que eu saiba os outros também. O seu limite, pra mim, era breve. Era a reorganização do seu tempo, das suas demandas. Era o prazo que estabeleci pra mim, antes de me convencer que você não sumiu por causa disto ou daquilo, mas porque você quis, coberto de razão.
E dia desses eu te encontrei. Coração disparado. Te seguia com os olhos, mas não queria chegar perto. Uma, duas, três vezes. Mas nem sempre me obedeço. E, sem querer, acabo te obedecendo. E foi tão, tão, tão bom, muito além do corpo, e tão antes dele, da pele, o carinho, a companhia, o abraço, o cafuné.
E foi por isso que eu disse: Não some, não. Se for pra sumir, me avisa, e some de uma vez. Meio como Guimarães Rosa, na Terceira Margem do Rio, CÊ vai, OCÊ fique, VOCÊ nunca mais volte. Você ri. É verdade. Sabe, se não for pra ser inteiro, não quero. E que mulher mais doida é essa que você foi arrumar, que transforma as coisas em superlativos, e quer terminar com toda a pompa e circunstância o que nem chegou a começar? Sou eu. Assim. Porque quero que você saiba o que é que está passando aqui, que logo, logo passa – como tudo na vida –, e que eu não consegui te dizer. Ainda.

1 de agosto de 2009

Timming

Alô? Porque é que meu inferno astral chega sempre atrasado, hein?
Melhor seria se nem viesse.
Humpf!