Dizem por aí... Páscoa é passagem. Penitência, sacrifício. Renovação,
ressurreição. Fertilidade. A chegada de uma nova vida.
Sempre tive muita fé e acreditei muito em Deus. Mas confesso que nunca fui
muito de ir a missas, embora seja apaixonada por igrejas. É que a minha relação
com Ele é outra... A Anna sabe explicar
muito bem como é...
E pensando em um esquilhão de coisas nestes dias, me peguei tentando me lembrar
das últimas Páscoas que passei. Minha memória é tipo de elefante, costumo dizer
que ela é péssima, porque eu me lembro de tudo, até do que não quero. Mas neste
exercício, só me lembrei das duas últimas:
Ano retrasado eu estava na Europa, com meus pais e minha irmã. Eu estava triste, triste, porque gostava de um moço com quem eu estava há alguns meses e que, embora afirmasse que gostava de mim e queria ficar comigo, disse que estava confuso por causa da ex, e enquanto ele não se resolvia, queria era bem ficar com as duas. Mas assim pra mim não dava. Como eu ia ser inteira (não sei ser de outa maneira) pra quem só estava disposto a ser metade? Viajei um dia depois de terminar com ele, um dia antes da Sexta-feira da Paixão. E no domingo, em Lisboa, a gente visitava uma igrejinha que eu nem lembro qual era, quando começou a missa de Páscoa. Uma procissão, padres, cantos em latim, incenso, água benta, velas e um monte de fiéis acompanhando. Coisa linda de se ver. Tive uma conversa boa com o Sr. Deus neste dia. Mais do que qualquer coisa, eu tinha muito a agradecer. Pela vida. Pela minha família, pela companhia dos meus pais e da minha irmã, amores sem medida, pela viagem maravilhosa que estávamos tendo a oportunidade de fazer, pela beleza das paisagens e construções que estávamos visitando, por cada novo sabor que estávamos experimentando, por cada semente que tudo isto planta no nosso peito e brota no nosso pensamento. E meu pedido foi um só: que Ele iluminasse a cabecinha e o coração do tal moço, pra que ele pudesse organizar seus sentimentos e suas vontades, que deve ser muito ruim a gente querer tudo ao mesmo tempo, quando na realidade não é bem assim que as coisas são. De volta, o tal moço, veja só, resolveu que a história com a ex era mesmo caso encerrado, e pediu uma nova chance de me mostrar que valia a pena. E eu, romântica e entusiasta do amor, em cujo dicionário dificilmente se vê a palavra orgulho, o recebi de braços e coração abertos.
Ano passado eu estava aqui mesmo, teminando com o mesmo moço aí de cima, em pleno Domingo de Páscoa, porque descobri na Sexta-feira da Paixão que ele tinha outra namorada (sim, outra n-a-m-o-r-a-d-a) e achei melhor dormir com este barulho por uns dias, esperando o melhor momento (pra ele) pra fazer essa coisa chata que é dizer eu-descobri-que-você-tem-outra-então-pra-mim-não-dá-mais (me sentindo o mosquito do cocô do cavalo do bandido, diga-se de passagem). Resultado: mais uma conversa boa com o Sr. Deus. Mais gratidão por tudo de bom que Ele e esta vida me trazem (e tudo de ruim que Eles me levam embora), e só mais um pedido (ou dois): que Ele iluminasse a cabecinha e o coração do tal moço, pra que ele pudesse deixar de confusão e ser feliz, nem que fosse com a moça que ele arranjou pra lá, mas que eu possa ser feliz também, com alguém que queira ser inteiro como eu sou.
E agora?
Bom. Hoje é Sexta-feira da Paixão. Depois de amanhã, Domingo de Páscoa. Quebrei a perna logo antes do Carnaval (embora só tenha descoberto logo depois) e passei a Quaresma de muletas. Não deixei de comer chocolate, nem carne vermelha, nem deixei de beber vinho ou cerveja. Meu sacrifício foram as minhas muletas. Semana que vem me livro delas, e logo depois de outro incômodo que há algum tempo me acompanha: vou tirar um pólipo no endométrio. É, ali mesmo, no útero, no ventre. E o tal moço inteiro que eu pedi? Este ainda vem... Passo a passo, a seu tempo, mas vem! Que esse negócio de ter pressa só serve pra quebrar as pernas da gente e fazer sangrar por dentro!
Deus deve saber mesmo o que faz. Ele sabe, sim. E Ele está o tempo todo tentando falar com a gente, mesmo que às vezes a gente tagarele tanto que não consiga escutar.
Páscoa é passagem. Penitência, sacrifício. Renovação, ressurreição. Fertilidade. A chegada de uma nova vida. É tão difícil assim perceber?

