5 de setembro de 2013

Para caminhar entre as estrelas


Eu já fiz o Caminho de Santiago.
Tem gente que faz o Caminho a pé. Tem gente que vai de bicicleta, tem gente que vai a cavalo. Já ouvi de gente que vai até de carro também.
Eu fui de sonho.
Fui de sonho, de sintonia, de coração. Fui de espera e de saudade. Fui de fé e de vontade. Fui de amor. Fui de reza, de oração. Fui de vela, fui de música, fui de mar. Fui de lua cheia e céu estrelado. Fui de muletas. Fui de expectativa. Fui de mapas e fotos na internet. Fui de e-mail, Facebook, fui de blog.
Eu não fui sozinha. A gente não vai a lugar nenhum sozinho, mesmo só.
Um dia eu faço este Caminho de novo. Um dia eu faço este Caminho a pé.
Quero ir com você, como da primeira vez. Quero ir com você por este e pelos outros Caminhos por onde irei.



18 de julho de 2013

Dizer em dois o que eu não sou num só

No meio de mim tem o mar.
No meio de mim tem amor.
No meio de mim tem sorriso.
No meio de mim tem abraço, tem beijo, carinho, saudade, vontade.
No meio de mim tem música e poesia.
No meio de mim tem você.

30 de junho de 2013

A gente é feito pra caber no mar


A vida que há pela frente
Nem seria aproveitada
Se a morte que aguarda a gente
Tivesse data marcada

Soares da Cunha

4 de maio de 2013

Soares da Cunha



Ele sempre teve medo da morte. Medo não. Pavor. Acho que todo mundo deve ter, pelo menos um pouco. A gente tem medo do que a gente não sabe, do que a gente não conhece, né? E tem medo de ficar sozinho. Eu sou bem assim também. Desde pequena. Tinha insônias terríveis, com medo de dormir e não acordar mais. Eu? Ele. Ele? Eu.
Ele sempre foi o meu avô doidinho. Doidinho, não. Doidão. O que vê moça nova e bonita na rua e diz que Jânio Quadros tinha razão quando queria proibir minissaia e biquíni  porque isso faz muito mal pra velho que ainda enxerga. O que sai pra boemia e tem que ser levado do boteco às quatro da manhã. O que dirige, mesmo velhinho, no meio da pista de mão e contramão, porque diz que gosta de andar na linha, ainda que na prática a teoria seja outra. O que chega na concessionária e pede um carro roxo, simplesmente porque ele acordou com vontade de dirigir um carro roxo. O que corta com o canivetinho o fumo de rolo e enrola na palha de milho os próprios cigarros. O que arruma uma namorada em cada esquina, ah, as suas concubinas, mesmo com a vovó esperando em casa. O que sempre foi cheio de vontades, e cheio de gente disposta a atendê-las. O poeta, o trovador, o que sabe usar as palavras com uma dose de humor e sarcasmo a qualquer hora.
Teimoso. Ah, e quem não é? E que graça que tem viver pela metade? Mas quem é que não quer viver?
Não, eu não estou com medo. Estou com o coração apertado, é verdade. Mas, sabe, Deus sabe bem o que faz. Porque às vezes a gente acha que sabe o que é melhor, e quer muito uma coisa, mas se Ele quiser outra e achar que a outra coisa é melhor, a gente tem que acreditar Nele, tem que confiar Nele, e entregar pra Ele.


Por menos que eu dela goste,
Das minhas trovas, querida,
Não posso excluir a morte:
Ela faz parte da vida.


7 de abril de 2013

Tipo assim

Ir à maternidade e não sair de lá com um neném é tipo ir ao aeroporto e não sair de lá de avião.

29 de março de 2013

O preço de não se ter medo é a fé



Dizem por aí... Páscoa é passagem. Penitência, sacrifício. Renovação, ressurreição. Fertilidade. A chegada de uma nova vida.

Sempre tive muita fé e acreditei muito em Deus. Mas confesso que nunca fui muito de ir a missas, embora seja apaixonada por igrejas. É que a minha relação com Ele é outra...  A Anna sabe explicar muito bem como é...

E pensando em um esquilhão de coisas nestes dias, me peguei tentando me lembrar das últimas Páscoas que passei. Minha memória é tipo de elefante, costumo dizer que ela é péssima, porque eu me lembro de tudo, até do que não quero. Mas neste exercício, só me lembrei das duas últimas:

Ano retrasado eu estava na Europa, com meus pais e minha irmã. Eu estava triste, triste, porque gostava de um moço com quem eu estava há alguns meses e que, embora afirmasse que gostava de mim e queria ficar comigo, disse que estava confuso por causa da ex, e enquanto ele não se resolvia, queria era bem ficar com as duas. Mas assim pra mim não dava. Como eu ia ser inteira (não sei ser de outa maneira) pra quem só estava disposto a ser metade? Viajei um dia depois de terminar com ele, um dia antes da Sexta-feira da Paixão. E no domingo, em Lisboa, a gente visitava uma igrejinha que eu nem lembro qual era, quando começou a missa de Páscoa. Uma procissão, padres, cantos em latim, incenso, água benta, velas e um monte de fiéis acompanhando. Coisa linda de se ver. Tive uma conversa boa com o Sr. Deus neste dia. Mais do que qualquer coisa, eu tinha muito a agradecer. Pela vida. Pela minha família, pela companhia dos meus pais e da minha irmã, amores sem medida, pela viagem maravilhosa que estávamos tendo a oportunidade de fazer, pela beleza das paisagens e construções que estávamos visitando, por cada novo sabor que estávamos experimentando, por cada semente que tudo isto planta no nosso peito e brota no nosso pensamento. E meu pedido foi um só: que Ele iluminasse a cabecinha e o coração do tal moço, pra que ele pudesse organizar seus sentimentos e suas vontades, que deve ser muito ruim a gente querer tudo ao mesmo tempo, quando na realidade não é bem assim que as coisas são. De volta, o tal moço, veja só, resolveu que a história com a ex era mesmo caso encerrado, e pediu uma nova chance de me mostrar que valia a pena. E eu, romântica e entusiasta do amor, em cujo dicionário dificilmente se vê a palavra orgulho, o recebi de braços e coração abertos.

Ano passado eu estava aqui mesmo, teminando com o mesmo moço aí de cima, em pleno Domingo de Páscoa, porque descobri na Sexta-feira da Paixão que ele tinha outra namorada (sim, outra n-a-m-o-r-a-d-a) e achei melhor dormir com este barulho por uns dias, esperando o melhor momento (pra ele) pra fazer essa coisa chata que é dizer eu-descobri-que-você-tem-outra-então-pra-mim-não-dá-mais (me sentindo o mosquito do cocô do cavalo do bandido, diga-se de passagem). Resultado: mais uma conversa boa com o Sr. Deus. Mais gratidão por tudo de bom que Ele e esta vida me trazem (e tudo de ruim que Eles me levam embora), e só mais um pedido (ou dois): que Ele iluminasse a cabecinha e o coração do tal moço, pra que ele pudesse deixar de confusão e ser feliz, nem que fosse com a moça que ele arranjou pra lá, mas que eu possa ser feliz também, com alguém que queira ser inteiro como eu sou.

E agora?

Bom. Hoje é Sexta-feira da Paixão. Depois de amanhã, Domingo de Páscoa. Quebrei a perna logo antes do Carnaval (embora só tenha descoberto logo depois) e passei a Quaresma de muletas. Não deixei de comer chocolate, nem carne vermelha, nem deixei de beber vinho ou cerveja. Meu sacrifício foram as minhas muletas. Semana que vem me livro delas, e logo depois de outro incômodo que há algum tempo me acompanha: vou tirar um pólipo no endométrio. É, ali mesmo, no útero, no ventre. E o tal moço inteiro que eu pedi? Este ainda vem... Passo a passo, a seu tempo, mas vem! Que esse negócio de ter pressa só serve pra quebrar as pernas da gente e fazer sangrar por dentro!

Deus deve saber mesmo o que faz. Ele sabe, sim. E Ele está o tempo todo tentando falar com a gente, mesmo que às vezes a gente tagarele tanto que não consiga escutar.

Páscoa é passagem. Penitência, sacrifício. Renovação, ressurreição. Fertilidade. A chegada de uma nova vida. É tão difícil assim perceber?

25 de março de 2013

Sobre freios e parafusos



É certo que muito se fala sobre pessoas com parafuso a menos, aquelas meio avoadas, desequilibradas, enfim, você bem conhece a expressão...

Pensando sobre isto, outro dia, eu cheguei a conclusão de que também existem pessoas, muito mais raras que as de parafusos a menos, que tem parafusos a mais.

Pessoas com uma dose extra de juízo, com válvulas mais ajustadas, que funcionam com mais fluência, menos ruído e mais durabilidade. Pessoas super responsáveis, ultra dedicadas, disciplinadas e excepcionalmente diferentes, que fazem da felicidade uma receita simples e acham complexo essa história de complicar o que não era pra ter complicação. Pessoas que, como disse uma vez Eça de Queiroz, fazem de sua “existência superiormente interessante, onde cada hora tem o seu encanto diferente, cada passo conduz a um êxtase, e a alma se cobre de um luxo radioso de sensações!” Pessoas que resistem por mais tempo ao cansaço, que são mais fortes quando se precisa de um ombro amigo, que levam mais a sério a expressão companheiro é companheiro. Pessoas com um ajuste mais afinado, um grau mais elevado de sensibilidade, uma dose mais sutil de ironia e uma sintonia fina com a gente.

Tem gente com parafuso a menos aos montes. E raros exemplares de pessoas com parafusos a mais. E, sinceramente, não conheço um exemplar sequer de alguém que tenha a quantidade exata de parafusos, afinal, como já concluímos, de perto ninguém é totalmente normal.

Fato é que nessa toada de peças e consertos e ajustes e mecânicas, fiquei pensando que acharam em você o parafuso a mais – sempre desconfiei que ele existisse! Um pequeno parafuso que, afinal, regula essa feminilidade que transborda, essa braveza, essa vibração que sempre te marcaram e definiram. Benigno, muito embora ninguém queira um parafuso a mais, independente do nome que a ele se dê. Seu parafuso que veio te ensinar (e, de tabela, ensinar a quem te ama também, tipo eu), o que a gente teima em não querer entender: que o tempo das coisas não está em nossas mãos e que por mais que sejamos responsáveis, reguladas, parafusadas e funcionais, temos que aprender a lidar com a ansiedade e com o que um dia depois do outro consolida.

Aguardemos, pois. No momento, meu coração só vê, míope (pois não consegue ver muito bem o que está longe), só vislumbra que cada dia virá com uma dose extra de paciência, tolerância, expectativa. Além disso, estou bem certa de que cada dia trará também uma overdose de amor, de energias positivas. Além disso, trataremos este parafuso materializado com doses diárias (e  múltiplas), de carinho, de cuidado e de amizade, como, aliás, já fazemos há tantos anos...

Certo é que esta novidade meio chata que hoje nos invade, só chegou porque você está pronta para lidar com ela, porque você tem a marca de quem é mais, sempre mais, e mais que demais, é melhor.

Te amo muito, muito, muito, com todos os parafusos a mais, ou a menos, que você tem.

* Carta de uma amiga querida alguns meses atrás, diante da descoberta de um parafuso a mais, que depois se soube um pouco diferente - daí pequenas modificações. E o amor só cresce.


21 de março de 2013

I'm looking to the sky to save me



Quando eu fui saltar de paraquedas, uma das orientações mais repetidas pelo instrutor foi pra eu não segurar na porta do avião quando ela abrisse lá no ar. É que quando a gente vai de salto duplo, funciona assim: o paraquedas fica preso nas costas do instrutor, que fica preso nas costas da gente. Quando a porta abre, a gente tem que sair e ficar pendurado pra fora mesmo, pernas no ar, mãos na frente, acima do peito, segurando nas alças que nos amarram. Quem nos mantém dentro do avião até a hora de saltar é o instrutor, e pronto. Só que a enorme maioria das pessoas, pelo menos da primeira vez que salta, intuitivamente, desesperadamente, apavoradamente, tira as mãos das alças sobre o peito e se segura na porta do avião na hora que ela se abre e o vento sopra forte na cara. É medo mesmo. Frio na barriga. Reflexo.
Eu não. Sou muito aplicada e obediente. Gosto de mandar, é verdade, mas também sei ser mandada.
Quando foi chegando a hora de abrir a porta e saltar, ainda dentro do avião de portas fechadas, o instrutor prendeu tudo o que tinha que prender direitinho e eu já estava lá, com as mãos nas alças. Um amigo meu paraquedista que estava no mesmo avião e ia saltar em seguida quis me cumprimentar, me dar um daqueles toques de mão de boa sorte, vai, menina! E eu lá, com as mãos nas alças. Custei a perceber que eu podia tirá-las de lá um pouquinho pra retribuir o cumprimento, a porta ainda estava fechada. E quando ela abriu, lá fui eu me pendurar pra fora do fusquinha com asas que nos mantinha a 10.000 pés de altitude. Sem tirar as mãos das alças.
Coragem? Talvez. É que sou entrega. Quando resolvo ir, já fui, já estou indo...
Mas, sabe, nesta hora não nos resta outra opção senão confiar. Apostar que vai dar certo e aproveitar a viagem, a paisagem, o vento na cara, o nó nos cabelos, o frio na barriga. Se for pra se esborrachar no chão, neste momento não há mais nada que a gente possa fazer mesmo. Confiança. E aí já foi.



20 de março de 2013

Me abraça forte agora

Das tantas coisas que tenho aprendido com as muletas, talvez a mais bonita delas seja: elas sossegam quando se abraçam.
Sim, é difícil colocá-las de pé, principalmente no começo, quando a gente ainda não está habituada. A gente fica procurando as quinas, as beiradas, os cantos, apoiando no tampo da mesa, segurando no braço, enroscando na perna, tentando dar um jeito. Aí basta um esbarrão (ou um esbarrinho), uma brisa, até um olhar, e pronto! Elas caem!
Aí vem alguém pra ajudar, oferece pra pegar as muletas, pra guardá-las, pra deixá-las ali, ó, e é um sufoco só. A pessoa põe de um jeito, põe de outro, cai uma muleta no chão, segura a outra, cai outra vez, pega de novo, gira pra cá, arreda pra lá, apoia de um lado, cai mais uma vez.
Com o tempo (e não foi muito), aprendi que não precisa de tanto, canto, quinta, beirada, nem nada. Basta um abraço. É uma de frente pra outra, ou até meio de ladinho, bracinho com bracinho, ponta com ponta, encaixe perfeito. Aí, meu bem, não há parede reta ou mureta que resista! O mundo pára pra que elas fiquem de pé.
Quando se abraçam, elas não precisam de mais nada.