19 de março de 2009

Eu Fico Com A Pureza Das Respostas Das Crianças

Eu adoro ir ao cinema. E tinha tempos que eu não ia. (Pra quem costumava ir ao cinema toda semana, às vezes mais de uma vez, tempos é quase uma eternidade.)
Eu gosto muito de ir ao cinema sozinha. Tem filmes que ninguém mais gosta de ver, só eu. Tem horas que não tenho companhia. Tem horas que não quero companhia. Tem horas que sou minha melhor companhia. Tem horas que não dá tempo de ligar pra ninguém. Tem horas que só me encontro no cinema.
Mas também gosto muito quando vou ao cinema com alguém. Adoro quando me convidam pra ir ao cinema e eu não faço idéia de que o filme trata, e vou sem a menor expectativa.
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Hoje uma amiga querida e sumida (ok, ninguém some sozinho) me convidou pra assistir "O Menino do Pijama Listrado".
Confesso que já tinha ouvido falar dele, mas tinham passado batidos todos os artigos, resenhas, críticas ou notícias que vi sobre o filme, e cheguei lá sem saber absolutamente nada sobre esse tal desse menino do pijama listrado.
Levei um soco no estômago. Saí de lá engasgada.
Eu não choro em novela das seis, mas choro em desenho animado, propaganda de celular, eliminação de Big Brother e Lar Doce Lar do Luciano Huck. E não desceu uma lágrima enquanto eu assistia o menino de pijama listrado. Não desceu uma lágrima, mas eu me senti muito mal. Muitíssimo mal. Deu enjôo mesmo, aperto no peito, coração disparado na garganta.
Saí do cinema, entrei no carro, nem lembrei de ligar o som, coisa que eu faço automaticamente. Fui embora pra casa dirigindo e pensando, dirigindo e pensando. Tenho feito muito isso ultimamente, aliás. Trabalhar em Venda Nova me rende uns bons quase 50km por dia de trânsito ruim. Pensei em Kamchatka, pensei em Machuca, pensei nO Ano Em Que Meus Pais Saíram De Férias, pensei nO Menino do Pijama Listrado. Pensei em como todos estes filmes são parecidos por mostrarem o horror da guerra, do holocausto, da ditadura sob o olhar inocente das crianças. Todos eles mostram de alguma forma a maneira como estas crianças passam por situações de ódio e intolerância, de um lado ou de outro. Mostram o desconforto e o desconserto dos adultos em dar respostas às perguntas curiosas e inquietas de quem descobre o mundo e, mais do que isso, acredita nele. Mostram a dualidade entre o que os adultos explicam e o que as crianças vêem, e sentem. Pensei em como nos comove ver as coisas por este ângulo. Pensei nas pessoas que morreram (e morrem ainda hoje) sem razão. Pensei nas crianças que foram (e são ainda hoje) doutrinadas nesta intolerância e neste ódio. Pensei no preço alto que os adultos, culpados ou não (e até aonde vai a culpa?), pagaram (e pagam até hoje). Pensei nas crianças, estas sim, inocentes, que também pagaram (e continuam pagando) a conta maior deste horror. Pensei no que será que faz com que uns nasçam em famílias comunistas, judias, nazistas, fascistas, alemãs, norte-americanas, iraquianas, africanas, brasileiras, nas mansões ou nos barracos das favelas. Agradeci por ter nascido essa Ana, do jeitinho que eu sou, com tudo o que tenho, pai, mãe, irmãs, avós, tios, primos, amigos, escola, cinema, livro, teatro, música, computador, emprego, carro, viagem pra europa ou pra praia, mas mais ainda com tudo o que eu vivo, tudo o que eu penso e tudo o que eu sinto (ou posso viver, pensar e sentir).
Liguei o som do carro. Não era hora pra música. Ali só cabia o silêncio. Um ruído ou outro do carro, uma buzina ou outra do trânsito. No máximo. E ali, sozinha, no silêncio, chorei como menino pequeno.

3 comentários:

Eduardo Machado Santinon disse...

Texto lindo, a Ana é linda.

Renata Rodrigues disse...

Adoro você, única como só! Beijo!

Anônimo disse...

Aninha! Sai desse filme exatamente com essa sensação...Nem dá sair de outro jeito, né... E agradecendo, sempre!!! Bjo pra vc!