É certo que muito se fala sobre
pessoas com parafuso a menos, aquelas meio avoadas, desequilibradas,
enfim, você bem conhece a expressão...
Pensando sobre isto, outro dia, eu
cheguei a conclusão de que também existem pessoas, muito mais raras que as de
parafusos a menos, que tem parafusos a mais.
Pessoas com uma dose extra de juízo,
com válvulas mais ajustadas, que funcionam com mais fluência, menos ruído e
mais durabilidade. Pessoas super responsáveis, ultra dedicadas, disciplinadas e
excepcionalmente diferentes, que fazem da felicidade uma receita simples e
acham complexo essa história de complicar o que não era pra ter complicação.
Pessoas que, como disse uma vez Eça de Queiroz, fazem de sua “existência
superiormente interessante, onde cada hora tem o seu encanto diferente, cada
passo conduz a um êxtase, e a alma se cobre de um luxo radioso de sensações!”
Pessoas que resistem por mais tempo ao cansaço, que são mais fortes quando se
precisa de um ombro amigo, que levam mais a sério a expressão companheiro é
companheiro. Pessoas com um ajuste mais afinado, um grau mais elevado de
sensibilidade, uma dose mais sutil de ironia e uma sintonia fina com a gente.
Tem gente com parafuso a
menos aos montes. E raros exemplares de pessoas com parafusos a mais. E,
sinceramente, não conheço um exemplar sequer de alguém que tenha a quantidade
exata de parafusos, afinal, como já concluímos, de perto ninguém é totalmente
normal.
Fato é que nessa toada de peças e
consertos e ajustes e mecânicas, fiquei pensando que acharam em você o parafuso a
mais – sempre desconfiei que ele existisse! Um pequeno parafuso que,
afinal, regula essa feminilidade que transborda, essa braveza, essa vibração
que sempre te marcaram e definiram. Benigno, muito embora ninguém queira um parafuso a
mais, independente do nome que a ele se dê. Seu parafuso que veio te
ensinar (e, de tabela, ensinar a quem te ama também, tipo eu), o que a gente
teima em não querer entender: que o tempo das coisas não está em nossas mãos e
que por mais que sejamos responsáveis, reguladas, parafusadas e funcionais,
temos que aprender a lidar com a ansiedade e com o que um dia depois do outro
consolida.
Aguardemos, pois. No momento, meu
coração só vê, míope (pois não consegue ver muito bem o que está longe), só
vislumbra que cada dia virá com uma dose extra de paciência, tolerância,
expectativa. Além disso, estou bem certa de que cada dia trará também uma
overdose de amor, de energias positivas. Além disso, trataremos este parafuso materializado
com doses diárias (e múltiplas), de carinho, de cuidado e de amizade, como,
aliás, já fazemos há tantos anos...
Certo é que esta novidade meio chata
que hoje nos invade, só chegou porque você está pronta para lidar com
ela, porque você tem a marca de quem é mais, sempre mais, e mais que demais, é
melhor.
Te amo muito, muito, muito, com todos
os parafusos a mais, ou a menos, que você tem.
* Carta de uma amiga querida alguns meses atrás, diante da descoberta de um parafuso a mais, que depois se soube um pouco diferente - daí pequenas modificações. E o amor só cresce.
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