25 de março de 2013

Sobre freios e parafusos



É certo que muito se fala sobre pessoas com parafuso a menos, aquelas meio avoadas, desequilibradas, enfim, você bem conhece a expressão...

Pensando sobre isto, outro dia, eu cheguei a conclusão de que também existem pessoas, muito mais raras que as de parafusos a menos, que tem parafusos a mais.

Pessoas com uma dose extra de juízo, com válvulas mais ajustadas, que funcionam com mais fluência, menos ruído e mais durabilidade. Pessoas super responsáveis, ultra dedicadas, disciplinadas e excepcionalmente diferentes, que fazem da felicidade uma receita simples e acham complexo essa história de complicar o que não era pra ter complicação. Pessoas que, como disse uma vez Eça de Queiroz, fazem de sua “existência superiormente interessante, onde cada hora tem o seu encanto diferente, cada passo conduz a um êxtase, e a alma se cobre de um luxo radioso de sensações!” Pessoas que resistem por mais tempo ao cansaço, que são mais fortes quando se precisa de um ombro amigo, que levam mais a sério a expressão companheiro é companheiro. Pessoas com um ajuste mais afinado, um grau mais elevado de sensibilidade, uma dose mais sutil de ironia e uma sintonia fina com a gente.

Tem gente com parafuso a menos aos montes. E raros exemplares de pessoas com parafusos a mais. E, sinceramente, não conheço um exemplar sequer de alguém que tenha a quantidade exata de parafusos, afinal, como já concluímos, de perto ninguém é totalmente normal.

Fato é que nessa toada de peças e consertos e ajustes e mecânicas, fiquei pensando que acharam em você o parafuso a mais – sempre desconfiei que ele existisse! Um pequeno parafuso que, afinal, regula essa feminilidade que transborda, essa braveza, essa vibração que sempre te marcaram e definiram. Benigno, muito embora ninguém queira um parafuso a mais, independente do nome que a ele se dê. Seu parafuso que veio te ensinar (e, de tabela, ensinar a quem te ama também, tipo eu), o que a gente teima em não querer entender: que o tempo das coisas não está em nossas mãos e que por mais que sejamos responsáveis, reguladas, parafusadas e funcionais, temos que aprender a lidar com a ansiedade e com o que um dia depois do outro consolida.

Aguardemos, pois. No momento, meu coração só vê, míope (pois não consegue ver muito bem o que está longe), só vislumbra que cada dia virá com uma dose extra de paciência, tolerância, expectativa. Além disso, estou bem certa de que cada dia trará também uma overdose de amor, de energias positivas. Além disso, trataremos este parafuso materializado com doses diárias (e  múltiplas), de carinho, de cuidado e de amizade, como, aliás, já fazemos há tantos anos...

Certo é que esta novidade meio chata que hoje nos invade, só chegou porque você está pronta para lidar com ela, porque você tem a marca de quem é mais, sempre mais, e mais que demais, é melhor.

Te amo muito, muito, muito, com todos os parafusos a mais, ou a menos, que você tem.

* Carta de uma amiga querida alguns meses atrás, diante da descoberta de um parafuso a mais, que depois se soube um pouco diferente - daí pequenas modificações. E o amor só cresce.


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