6 de março de 2013

Portadora de Necessidades Especiais (ou o que as muletas têm me ensinado)


. Compaixão existe. As pessoas ficam muito mais simpáticas, solícitas e educadas quando te vêem;
. Portas de ambientes adaptados não abrem pra fora à toa. Experimenta puxar uma porta pesada de muletas;
. Luvinhas de musculação são muito úteis para várias coisas. Até pra fazer musculação;
. Bolinhas de espeto também são muito úteis, mesmo se não for pra fazer massagem;
. Descer do carro não é tarefa simples, muito menos com a chave na mão. E vai colocar a chave onde, hein? Se colocar na bolsa, pra pegar depois e fechar o carro é como procurar agulha num palheiro. Leva horas. Horas apoiada nas muletas. Ou numa perna só. Se colocar no bolso e ela cair... Ah, se ela cair...
. A gente se acostuma fácil a ser folgada. A mobilidade reduzida traz consigo uma mordomia que é bem legal. No começo a gente fica sem graça, e tal, mas depois acha é bom. Difícil vai ser levantar pra pegar um copo d'água quando eu puder andar normalmente de novo;
. Ainda bem que ninguém é de açúcar. Se chover, você vai tomar chuva. É humanamente impossível segurar muletas, carregar você e um guarda-chuva ao mesmo tempo. E neste caso, você vai se molhar bastante. De muletas não dá pra correr. A menos que você abuse da mordomia citada acima e telefone pro seu colega de trabalho ir te buscar no carro estacionado na porta do escritório, mesmo que ele não tenha um guarda-chuva e vá pegar o seu, que está com você dentro do carro;
. Antes de ir pro boteco e começar a beber cerveja, certifique-se que o banheiro é no mesmo pavimento da sua mesa e que ele tenha protetor de assento ou seja limpo o suficiente para você sentar no vaso (equilibrismo em uma perna só durante alguns minutos depois de umas cervejas não é tarefa das mais fáceis). Se não for este o caso, não espere a vontade apertar. Vá com antecedência. Você pode demorar um pouco mais que o habitual para chegar até o toilete, limpar e forrar o vaso;
. Aquela história das coisas simples da vida é a mais pura verdade. Existem coisas muitíssimo simples e de altíssima importância que a gente nem lembra que existem e que fazem uma falta danada quando a gente não tem. Abraçar em pé e andar de mãos dadas são algumas delas.

Ps: Acho que as pessoas começam a se cansar da minha minha mordomia. Minha mãe disse que vai me arrumar uma bandeja de pescoço, dessas de baleiro de cinema.


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