21 de março de 2013

I'm looking to the sky to save me



Quando eu fui saltar de paraquedas, uma das orientações mais repetidas pelo instrutor foi pra eu não segurar na porta do avião quando ela abrisse lá no ar. É que quando a gente vai de salto duplo, funciona assim: o paraquedas fica preso nas costas do instrutor, que fica preso nas costas da gente. Quando a porta abre, a gente tem que sair e ficar pendurado pra fora mesmo, pernas no ar, mãos na frente, acima do peito, segurando nas alças que nos amarram. Quem nos mantém dentro do avião até a hora de saltar é o instrutor, e pronto. Só que a enorme maioria das pessoas, pelo menos da primeira vez que salta, intuitivamente, desesperadamente, apavoradamente, tira as mãos das alças sobre o peito e se segura na porta do avião na hora que ela se abre e o vento sopra forte na cara. É medo mesmo. Frio na barriga. Reflexo.
Eu não. Sou muito aplicada e obediente. Gosto de mandar, é verdade, mas também sei ser mandada.
Quando foi chegando a hora de abrir a porta e saltar, ainda dentro do avião de portas fechadas, o instrutor prendeu tudo o que tinha que prender direitinho e eu já estava lá, com as mãos nas alças. Um amigo meu paraquedista que estava no mesmo avião e ia saltar em seguida quis me cumprimentar, me dar um daqueles toques de mão de boa sorte, vai, menina! E eu lá, com as mãos nas alças. Custei a perceber que eu podia tirá-las de lá um pouquinho pra retribuir o cumprimento, a porta ainda estava fechada. E quando ela abriu, lá fui eu me pendurar pra fora do fusquinha com asas que nos mantinha a 10.000 pés de altitude. Sem tirar as mãos das alças.
Coragem? Talvez. É que sou entrega. Quando resolvo ir, já fui, já estou indo...
Mas, sabe, nesta hora não nos resta outra opção senão confiar. Apostar que vai dar certo e aproveitar a viagem, a paisagem, o vento na cara, o nó nos cabelos, o frio na barriga. Se for pra se esborrachar no chão, neste momento não há mais nada que a gente possa fazer mesmo. Confiança. E aí já foi.



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