Quando eu fui saltar de paraquedas, uma das orientações mais
repetidas pelo instrutor foi pra eu não segurar na porta do avião quando ela
abrisse lá no ar. É que quando a gente vai de salto duplo, funciona assim: o
paraquedas fica preso nas costas do instrutor, que fica preso nas costas da
gente. Quando a porta abre, a gente tem que sair e ficar pendurado pra fora
mesmo, pernas no ar, mãos na frente, acima do peito, segurando nas alças que
nos amarram. Quem nos mantém dentro do avião até a hora de saltar é o
instrutor, e pronto. Só que a enorme maioria das pessoas, pelo menos da
primeira vez que salta, intuitivamente, desesperadamente, apavoradamente, tira
as mãos das alças sobre o peito e se segura na porta do avião na hora que ela
se abre e o vento sopra forte na cara. É medo mesmo. Frio na barriga. Reflexo.
Eu não. Sou muito aplicada e obediente. Gosto de mandar, é
verdade, mas também sei ser mandada.
Quando foi chegando a hora de abrir a porta e saltar, ainda
dentro do avião de portas fechadas, o instrutor prendeu tudo o que tinha que
prender direitinho e eu já estava lá, com as mãos nas alças. Um amigo meu
paraquedista que estava no mesmo avião e ia saltar em seguida quis me
cumprimentar, me dar um daqueles toques de mão de boa sorte, vai, menina! E eu
lá, com as mãos nas alças. Custei a perceber que eu podia tirá-las de lá um pouquinho
pra retribuir o cumprimento, a porta ainda estava fechada. E quando ela abriu,
lá fui eu me pendurar pra fora do fusquinha com asas que nos mantinha a 10.000
pés de altitude. Sem tirar as mãos das alças.
Coragem? Talvez. É que sou entrega. Quando resolvo ir, já
fui, já estou indo...
Mas, sabe, nesta hora não nos resta outra opção senão
confiar. Apostar que vai dar certo e aproveitar a viagem, a paisagem, o vento na
cara, o nó nos cabelos, o frio na barriga. Se for pra se esborrachar no chão, neste
momento não há mais nada que a gente possa fazer mesmo. Confiança. E aí já foi.
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