Estou cansada. O trabalho está ótimo, mas puxado, e tenho ficado cansada. No resto do tempo, tenho achado dormir uma excelente opção. Ando sem tempo de ler todas as coisas que quero. Tenho escutado sempre as mesmas músicas, e sinto falta de outras, apesar do iPod ter quase vinte mil e de ser eu quem escolhe o que vai tocar (quase) sempre. Amo meus amigos, mas estou mesmo cansada de ir sempre aos mesmos lugares. Me falta companhia pra ir a lugares diferentes, conhecer pessoas diferentes, ou iguais aos lugares de antes, diferentes dos de agora, iguais às pessoas de antes, iguais ou diferentes das de agora. Tenho tido preguiça de ir ao cinema, justo eu, e mais ainda, preguiça de ir ao cinema sozinha, justo eu, olha só. Tenho feito esforço sempre que posso, e sempre que me venço me lembro exatamente porque eu gosto tanto de ir ao cinema, e mais do que isso, de ir ao cinema sozinha. Tenho estado sempre tão cheia de gente, de amigos, de programas, que acho que acabei ficando vazia de mim. E o mais curioso, é que estou feliz. Acho que deve ser porque liguei o piloto automático, e sem tempo pra pensar, acaba não dando tempo nem pensamento de saber se isto tudo é felicidade mesmo, ou se é costume. Aí outro dia fui tomar banho, assim, normal, como todo dia, e vi que meu umbigo tava sujo. Justo eu? Que tomo banho todo dia, mais de um banho por dia, lavo os cabelos, faço as unhas toda semana, tenho mania de lavar as mãos, corto os cabelos no máximo a cada três meses, fiz depilação a laser, sou viciada em creme hidratante e álcool gel, não saio de casa sem perfume, não tenho chulé, uso roupas limpas, não deixo roupa suja espalhada no quarto, guardo os brincos e anéis todos nas suas caixinhas depois de usar, e tiro a maquiagem toda noite antes de dormir? De umbigo sujo? Pode rir, mas descobri que eu não estava cuidando do meu próprio umbigo. Assim, literalmente. E sabe-se lá os desdobramentos metafóricos que isto ainda pode ter... O bom disso tudo é que resolvi, de rompante, só por causa do umbigo sujo, que vou pra praia, sozinha, assim, passar um final de semana, na madrugada de sexta pra sábado, voltando de domingo pra segunda, pra ver o mar, molhar os pés (e todo o resto) na água salgada, mesmo que chova, e caminhar na areia, e ler, e ouvir algumas das vinte mil músicas do iPod, e pensar na vida, tirar foto com a câmera no tripé que comprei há quase um ano e nunca usei, comer bem, beber um vinho ou uma cervejinha, ver uns três ou quatro filmes, dormir na rede, recarregar as baterias, e descobrir por onde é que eu andava este tempo todo.
5 comentários:
inveja branca. quero ter meu tempo. pra pensar em mim e nos meus pensamentos longe do meu mundo de todo dia. de todos os dias.
sair da rotina. ver gente nova em lugar diferente. ou ver so lugar diferente sem gente. a mim, me basta. agora.
Quanta tentação! Música, Cinema, praia, cabelos, unhas, umbigo...
Ana, faz vc muito bem. Pq estar cercada de gente nem sempre quer dizer que é isso que a gente quer né? E ir aos mesmos lugares sempre....enche o saco, penso da mesma forma. Mas, o dilema é que como todo mundo vai sempre aos mesmos lugares, se vc não for junto, pra onde vai? Molhe os pés na areia por mim tb! Tô por pouco de fazer a mesma coisa! Bjo e saudades.
Ana querida,
Um texto desse merecia por si só aplausos. Agora tirar do papel e colocar na memória das coisas feitas com urgência, merece um espetáculo inteirinho de aplausos maravilhosos.
beijos,
É muito bom perambular pela net e encontrar textos bons onde a gente se reconhece.
Gostei!
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