29 de setembro de 2009

A engenharia da minha arquitetura

Eu sou arquiteta, mas trabalho mais como engenheira de obras. Não deixo de fazer meus projetinhos por fora, não deixo de fazer projetos, detalhes e alterações nos projetos da construtora, não deixo de fazer estudos e croquis. Mas na prática, sou mesmo mais engenheira que arquiteta.
Não vou negar que às vezes sinto falta dos fluxos criativos, das viagens, das formas e cores, das tentativas e desenrolares de traços, do desenvolvimento das idéias e da sua transposição pro computador ou pro papel, de traduzir sonhos e desejos em forma de casa, prédio, escola, museu, loja. Brinco que o blog é até uma forma de dar vazão a este fluxo criativo às vezes sufocado, a maneira que encontro de deixar a arte permear meus dias, de outras formas, e de algumas vezes reencontrar a arquitetura. Não que eu a tenha perdido. Mas os dias me mostram-na de outras maneiras.
Não é raro alguém me perguntar como eu vim parar aqui. Como assim a arquitetura deu lugar à engenharia? E na verdade, ninguém deu lugar a ninguém, elas andam juntas. Arquitetura, a princípio, pra todo mundo, é projeto. Projeto, projeto, projeto. E aí, normalmente, quando a gente forma na faculdade de arquitetura, vai pra algum escritório ou empresa desenhar, desenvolver, detalhar e coordenar projeto dos outros. E isso eu sabia bem que não queria. Achava pouco. A arquitetura anda, de alguma forma, corrompida. Nessa correria dos projetos cotidianos, embora a criatividade seja sempre necessária, a arte talvez tenha se perdido. Até porque, na nossa cultura, ela não é valorizada como deveria.
Então comecei a buscar outras formas de arquitetura. Sempre pensei muito em cenografia. A arquitetura com as cores, a música, os sons, as luzes e o movimento das peças de teatro e de dança. Até hoje eu penso. Mas me apaixonei mesmo por patrimônio histórico. A minha relação com o patrimônio histórico vem muito deste fascínio pela arquitetura, pela arte, pela forma como as duas estão tão interligadas, pela evolução das duas no tempo, pela história, e mais do que isso, pelas pessoas, e pela forma com que a arquitetura e a arte influenciam a vida e o modo de viver e pensar das pessoas, das comunidades, da sociedade. E eu adoro pessoas.
Então comecei na construtora coordenando obras de restauração, de patrimônio histórico, paixão que eu tenho desde antes de ir morar na Itália, e potencializada lá. Sempre meio entrona, atrevida e curiosa, acabei conhecendo de obra, de administração de obra, pedreiro, servente, carpinteiro, bombeiro, eletricista, armador, encarregado, mestre, material, suprimento, orçamento, custo, medição, carta e contrato, subempreiteiro, fiscal e cliente. E das obras de restauração, acabei indo pras obras todas.
E obra também é muito bom, porque é onde você vê as coisas acontecendo. Você vê o que o esforço de um monte de gente junta, de idades, habilidades, humores e origens diferentes é capaz de construir. Você vê as coisas serem, literalmente, construídas, e faz parte disso.
Hoje eu faço uma maternidade. É, não tem o mesmo fascínio do patrimônio histórico, mas é gostoso também. Muito pelas pessoas. E por poder dizer pros meus meninos, olha, já pensou um dia você falar pro seu filho que ele nasceu na maternidade que o papai construiu? Porque as coisas, arquitetura, engenharia, arte, patrimônio histórico, obra, projeto, sonho, construção, poesia, precisam de um significado. Assim como as pessoas.

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